Revivi e matei

Este talvez seja o post/ texto/ registro mais importante escrito por mim até hoje.

Vou começar do começo:

Como contei aqui tenho uma filha adolescente que está numa fase difícil para nós duas: qual o tamanho da  liberdade.

Como fico pensando no lado dela, frustração, negativas e impotência, fui lá no meu baú buscar respostas, peguei a sacola que está guardada faz muitos e muitos anos com minhas agendas e diários.

Quando adolescente a gente tinha agenda, não tinha computador, blog, fotolog, videolog, celular, nada,  só as agendas registravam nosso cotidiano e com algumas poucas fotos pois era filme, revelação etc…

Eu escrevia religiosamente todos os dias da minha vida adolescente, dos 13 aos 17, a partir daí veio faculdade e a vida ficava mais agitada e os registros foram diminuindo sensívelmente e menos detalhados também.

Eu fiquei impressionada com a quantidade de palavras que eu coloquei no papel, eram palavras por todos os lados, além das linhas e margens, muitas vezes até extensões grampeadas ou coladas para poder escrever e contar mais e mais sobre o que estava se passando na minha cabeça e no meu coração…fazendo as contas eram 1.825 páginas/dias da minha vida 100% registradas ali, uma coletânea, uma enciclopédia adolescente completa e por incrível que pareça, atualizada.

Atualizada pois o que se passa ali, dentro de um ser adolescente, é sempre igual, aflições, inseguranças, descobertas, medos, acertos , erros…

Consegui me encontrar na mesma idade da minha filha hoje, puxei um pouco antes e fui lendo, relembrando e ao mesmo tempo, mesmo lendo, não conseguia lembrar, coisa bizarra isto, era eu ali no papel mas minha memória não acusava tal acontecimento.

Quando a gente é mãe, adulto , maduro pensamos sempre que eles são muito “bobinhos”, ingênuos, incapazes de se virar, fazer, acontecer. Em parte e por um tempo  são mesmo, mas eles crescem e aprendem mas a gente sempre vai achar que de alguma forma não estão preparados, mesmo tendo mais de 30 anos.

Quando consegui me localizar na mesma idade, dia e momento ( fui na data na qual faltavam 11 dias para eu completar 15 anos ), exatamente como está ela, que completa 15 anos dia 19/02/2011,  li muito atentamente o dia, os anteriores  e os seguintes, percebi que estou protegendo um pouco e que ela merece mais uma rédea. Nada está fora da ordem, não estou prendendo na torre,  mas ela sendo como é pode sim abrir mais espaço por aí e claro, conquistar mais a nossa confiança ganhando sempre mais e mais.

Eu fiquei muito mais confortável comigo, com quais atitudes tomar e como vou direcionar a educação, foi um divisor de águas no nosso percurso, pois  agora sei o que e como ela sente e até o que vai acontecer, dá pra dizer que lá estava descrito todo o futuro dela, com diferentes nomes, lugares e datas, mas os sentimentos das palavras e as aflições são os iguais.

Pronto, uma parte deste registro termina.

A segunda parte do registro é como eu vi tudo isto de mim mesma. É bom explicar que minha filha não soube de nada disto até hoje, o dia em que destrui TUDO (11/02/20011) sem ela nem ter tido oportunidade de ler.

Acordei peguei a picotadora de papel e fui ano após ano destruindo, picotando todas as minhas memórias, lendo algumas partes e chorando que nem uma maluca.

Pensei em parar e deixar aquilo guardado mais uns anos, mas ah… pra quê? Aquilo tudo tinha cumprido a função a que deve ter sido destinado.

Eu me comovi muito com o que tinha lá, me assustei muito com minhas aflições, nossa como eu sofria, como minha cabeça se confundia junto com meus atos, como tudo que consideramos “coisa de adolescente”  é coisa muito séria e dói, perturba, entristece.

Como o tempo passa e com ele tantas pessoas e momentos  se apagam, li nomes de pessoas que fizeram parte da minha vida, algumas até importantes pelo que estava escrito, mas que sumiram da memória. Ler diversas passagens dos meus dias da minha rotina e não me lembrar, não fazer sentido algum. Foi muito, muito bizarro, muito conflitante.

Antes que alguém pense que nos registros haviam muitas drogas, sexo e rock&roll por isto a decisão de destruir, não, não tinha nada disto…não foi medo algum de ser descoberta pela filha ou do  marido desnudar um passado negro. Mas o que estava lá era meu, só meu e ninguém além de mim mesmo entenderia, nem minha filha adolescente apesar de estar vivendo o momento.

Eu não sei dizer muito mais, sei que precisei fazer aquilo com muito esforço, foi um assassinato da minha protagonista, foi a morte da minha inocência, do início de formação do que sou hoje.

Obrigada aos namorados, amigas, amigos, paqueras,  turma do Itaim, da Pedroso, amigos do BE, do Miguel, do Objetivo, do Guarujá, de Campos, Amparo, Pinhal, do QG, Dancing, Victoria PUB, Tamatete, Allure, Limelight e tantos outros lugares que frequentei, que me diverti horrores, que morri de fossa, que fui trocada por outra, que troquei por outro, que levei o fora, que dei o mesmo fora, que corri atrás do fulano, que dei maior furo, paguei um super mico, que fofoquei no banheiro, que beijei e fiquei com batom borrado, que usei ombreiras enormes, que dancei lambada, que bebi demais, que amei muito e noutro dia num amava mais, que varei a noite, que chorei demais, que briguei pela amiga, que briguei com a amiga, que surtei quando a amiga pegou meu paquera, que voltamos a ser amigas, que fiquei com quem não queria pra fazer ciúmes, que passei trote, que desliguei na cara, que fiquei calada…

Um passado meu e só meu, que me trouxe muitas lembranças e cumpriu o ciclo, agora vive um pouco aqui neste post e na minha cabeça, a qual só armazena o que quer, o que cabe, o que vale.

#prontofalei fecha um ciclo e abre um novo.